Licorice Pizza

Tomás Gimenes

“Licorice Pizza” é a história do relacionamento entre Gary e Alana, dois jovens enfrentando a difícil tarefa de amadurecer, vivendo na Califórnia na década de 70. Gary tem 15 anos e teve moderado sucesso como ator. Tem grande ambição e um desejo por reconhecimento ainda maior. Alana tem 25 anos e parece ainda estar lutando pela confiança de dar passos maiores na vida. Mas ambos são motivados por um sentimento similar: o de se encaixar em um espaço e criar algum impacto em seu tempo.
O filme segue Alana e Gary se aventurando lado a lado pelo mundo das celebridades, da política e dos negócios, enquanto enfrentam diversos obstáculos, trazendo sempre o melhor e o pior um do outro durante o caminho. Mas o filme também foca em seus crescimentos isolados, alternando entre o ponto de vista dos personagens. Principalmente nos vários momentos do filme em que eles se distanciam e tomam caminhos diferentes, sempre terminando, literalmente, correndo em direção um ao outro.
Indicado a 3 Oscar, incluindo melhor filme, o novo filme de Paul Thomas Anderson, ou “PTA” para os íntimos, é um filme sobre crescimento ("coming of age" em cinefilês) que nos apresenta o lado idealizado da juventude rebelde dos anos 70, no estilo de cineastas como Richard Linklater, ao mesmo tempo que desconstrói essa mesma idealização.
As referências à cultura dos anos 70 raramente ocorrem de forma forçada. Eventos como o "boom" de popularidade das camas d'água e a crise do petróleo, que foram marcantes durante essa época, são incorporadas naturalmente na história de Gary e Alana, à medida em que eles adentram o mundo do empreendedorismo.
O mesmo pode ser dito das referências à cultura Pop. Além da incrível e eclética trilha sonora dos anos 70, que inclui desde Sonny & Cher até David Bowie, o filme contém incríveis performances inspiradas em figuras reais, como Sean Penn, que encarna uma paródia excêntrica do ator William Holden; e Bradley Cooper, que rouba todos as cenas em que aparece como o infame produtor Jon Peters, em uma das mais icônicas participações especiais em um filme de PTA desde Alfred Molina em “Boogie Nights”.
“Licorice Pizza” marca as surpreendentes estreias de atuação de Cory Hoffman e Alana Haim, que interpretam Gary e Alana. Hoffman é o filho do falecido ator Philip Seymour Hoffman, colaborador de longa data de PTA. Já Alana Haim é musicista e integrante da banda Haim, que fundou junto com suas irmãs, que aparecem no filme como as irmãs de sua personagem.
O fato de ambos serem estreantes da tela grandes ajuda a tornar seus personagens mais reais, e seu mundo mais tangível, principalmente quando eles são colocados ao lado de atores já estabelecidos interpretando figuras icônicas, como Sean Penn e Bradley Cooper.
Mas mesmo sendo sucesso de público e críticas, o filme não escapa de certas controvérsias. Desde sua estreia nos cinemas, tem havido muita discussão acerca da diferença de idade entre Alana e Gary, principalmente quando a relação entre os dois se torna mais íntima.
O filme também recebeu críticas em relação ao personagem de John Michael Higgins, que em duas ocasiões diferentes conversa com suas esposas japonesas em um sotaque japonês estereotipado.
Em relação às controvérsias, PTA defende que o filme não necessariamente endossa o relacionamento de Gary e Alana, nem considera o comportamento dos personagens necessariamente provocador. O diretor fez comentários similares sobre o personagem de Higgins, e defende que a intenção era ilustrar um comportamento típico da época. Apesar da defesa do diretor, é compreensível que esses momentos tenham recebido tanta atenção.
PTA tem um talento incomparável para criar histórias sobre relacionamentos complexos, repletos de entraves, que mesmo com a dificuldade que ambas as partes têm de se conectar, nós torcemos por elas. “Licorice Pizza” não é exceção. O roteiro, a edição, a poesia visual que PTA cria, tudo se junta em uma harmonia perfeita de forma que, a euforia que sentimos pelo tom esperançoso do final do filme é cortado pela sensação latente de que, talvez, o futuro não seja tão brilhante quanto imaginamos.
Outras participações especiais que não foram mencionadas:
Christine Ebersole está divertidíssima como Lucille Doolittle, atriz inspirada em Lucille Ball.
John C. Reilly, outro colaborador de longa data de PTA, faz uma rápida ponta como Fred Gwynne, o ator que interpretava Herman Munster no famoso seriado dos anos 60, “Os Monstros” (os créditos do filme listam “Fred Gwynne como ele mesmo”).

Nota: 4,0.

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