Pinóquio por Guillermo Del Toro



O novo filme da Netflix, “Pinóquio”, trazido à vida pelo cineasta, animador e especialista em Claymation Mark Gustafson, e um dos mestres da fantasia moderna Guillermo del Toro, talvez seja uma das melhores interpretações cinematográficas do personagem na história do cinema, e aquela que melhor explora o potencial da história clássica e justifica o atual ressurgimento cultural do personagem.
Del Toro aperfeiçoou a arte de equilibrar fantasia e drama, com um estilo altamente artístico e reconhecível, que consome a tela, mas nunca atrapalha a história, e “Pinóquio” não é diferente. Del Toro e Gustafson elevam a história original enriquecendo o mundo ao redor do personagem.
O filme nos leva direto para a Itália durante o auge do fascismo, e nos apresenta a algumas versões novas e ousadas de personagens conhecidos como Gepeto, um homem de bom coração cuja decisão de construir Pinóquio é motivada por tristeza e dor não resolvidas; e um inteligente grilo chamado Sebastian, que em um belo simbolismo, construiu sua casa exatamente onde está o coração de Pinóquio. Ao aprender como ajudar Pinóquio a “se tornar um menino de verdade” e, essencialmente, encontrar sua humanidade, eles se reconectarão com os homens (ou homem e Grilo no caso), dedicados e atenciosos que um dia foram.
A busca de Pinóquio por sua humanidade é o coração da história. Com o coração e o entusiasmo de uma criança, Pinóquio enfrenta questões profundas sobre ética e mortalidade, luta contra as normas sociais repressivas e enfrenta muitos preconceitos ao longo do caminho, mostrados não apenas pelo medo e desconfiança das pessoas, mas também através de como a sociedade o explora, seja pelas mãos de Podestá, um rígido oficial fascista que quer transformar Pinóquio em soldado, ou pelo Conde Volpe, um vigarista e mestre de cerimônias que transforma Pinóquio em uma atração circense.
A questão da mortalidade é um dos temas principais do filme e serve de gancho para diferentes metáforas para a jornada de Pinóquio. Quando ele descobre que não pode morrer e, portanto, não pode ser um menino de verdade, cada nova chance que recebe é literalmente uma nova vida e uma nova jornada que lhe é imposta, na qual ele deve aprender a lidar. Seja sendo forçado a entrar no exército, ou se tornando um animador do partido fascista, Pinóquio acaba influenciando as pessoas ao seu redor e mudando suas vidas para melhor.
E essa é a maior inovação que este filme traz para a história de Pinóquio: sua jornada se torna uma jornada de autoconfiança. Não se trata de como ele precisa mudar, mas sim de como ele muda os outros a sua volta, e ele aprende a se aceitar da mesma forma que os outros. No início do filme vemos o pior lado da morte, ela é apresentada como algo violento e destrutivo, e no final, a morte se torna a imagem associada de algo que é pacífico e acolhedor.
Nem precisa falar que Pinóquio é uma conquista artística. O projeto é tão pessoal para Del Toro que ele fez questão de reunir um grupo inteiramente composto de artistas mexicanos, que pudessem honrar suas raízes narrativas e criar algo com tanta paixão e atenção aos detalhes que é contagiante. A animação e o estilo da arte parecem ter saído diretamente de um livro de histórias, mas também 100% Del Toro.
Alexandre Desplat, como sempre, traz o máximo de suas habilidades para a trilha sonora. Desplat trabalhou diretamente com Del Toro e o letrista Roeban Katz para escrever algumas canções originais para criar alguns momentos musicais, que compõem algumas das mais belas sequências do filme.
O filme apresenta um elenco incrível que conta com nomes como Christoph Waltz, Gregory Mann e Tilda Swinton. Entre os destaques estão Cate Blanchett, uma das indicadas ao Oscar deste ano, que neste filme brilha como a voz do macaco Spazzatura, e Tom Kenny, o próprio Bob Esponja, como ninguém menos que Benito Mussolini.
“Pinóquio” está disponível na Netflix, junto com o documentário “Pinóquio por Guillermo del Toro: Cinema Feito a Mão”, que traz uma bela visão sobre o making off do filme.

Nota: 4,5.


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