Tár



O longa dirigido por Todd Field conta a história de Lydia Tár, uma maestrina da Filarmônica de Berlim que se prepara para gravar, com a orquestra, a desafiadora Quinta Sinfonia de Mahler.
Já no começo somos apresentados a Tár, num monólogo tão grandiloquente, mas que depois muitos se pegam no Google para descobrir quem ela é, dando indício de que Todd Field quer apresentar para nós, como o sensacionalismo e distanciamento.
No decorrer do filme temos um discurso sobre fama, pedantismo, mídia e a cultura do cancelamento, que estimula vários sentimentos no seu público, com um prazer perverso, direcionado não só a Lydia, mas todos aqueles que a orbitam. Aliás, a cultura do cancelamento é uma cena que vale muito a pena ser estudada, pois ela foi deturpada e mostra como o ponto de virada contra a Tár.
A ambientação proposta por Field é importante pois mostra o reflexo da personagem e sua dualidade, através de cenas sóbrias, assépticas e estéreis. Visto em seus locais de conversas com outras figuras importantes da música, nas ruas, nos escritórios e inclusive na casa que divide com a esposa. Totalmente o oposto, pois no outro mundo, temos essa inversão da assepsia, principalmente nos ambientes onde ela parece estar mais confortável, mais entregue, mais honesta. Seu palco, o estúdio, a outra casa que insiste em manter, todos os locais que servem como um refúgio para ela.
Com o passar dos eventos, vemos sua credibilidade decaindo a cada momento do filme, como uma nota musical na escala. E com a chegada da apresentação suas neuras e estresses vão aumentando ainda mais, onde começa a ter alucinações, causando principalmente a falta de concentração e raiva ligada ao som, muito interessante, por se tratar de uma maestrina.
Por se tratar de uma pessoa que chegou ao topo e tendo que passar por vários obstáculos ela se torna uma pessoa que precisa ter o controle de tudo e quando não tem parece que sua vida está toda bagunçada e fora de ritmo, outra referência a sua profissão, que tem o controle do bem mais precioso, o tempo.
Este foi um ponto muito bem colocado pelo diretor, pois mostra o tipo de pressão que principalmente uma mulher enfrenta ao chegar ao ponto mais alto da carreira, onde sempre será vista como um demérito e sempre terá alguma coisa que tire a credibilidade dela.
Por consequência disto tudo ela desenvolve um tipo de casca, onde não sai para praticamente nada, nem mesmo para sua filha. Em consequência disto ela tem de lidar com sua forma rígida e egoísta no tratamento das pessoas ao seu redor. Por causa disto é que se dá a destruição das bases estáveis sobre as quais se apoiava sua vida.
É nesse contraste entre as dualidades que Tár acaba por habitar essas duas potencialidades coexistentes. A performance de Tár está cruel e colossal que realmente vale a pena, pois você consegue perceber que ela incorporou mesmo a personagem e que foi escrita mesmo para ela.
Por fim temos o mundo cinzento de Berlim e da direção de Field que contamina toda a obra, impedindo que a decadência do artista se torne concreto, palpável. A questão da sonoridade também faz jus ao filme, pois em várias passagens é marcado pelo som, como a cena onde ela está como maestrina e incorpora toda a música.
Podemos assim dizer, que Tár é uma obra que tem diversos contrapontos: as contradições da personagem, o debate sobre a dualidade da personagem, entre a relação entre a vida da artista e sua obra, sobre como uma personalidade egocêntrica consome todo o ambiente ao seu redor em vias da própria destruição.
Algumas coisas podem denotar como pontos negativos, principalmente a questão da sonoridade, que foi pouco explorada, pois poderia soar como o "Whiplash: Em Busca da Perfeição", no quesito de mostrar mais a genialidade de Tár. A parte sobre seu passado com a menina foi pouco explorada, dando a entender que ela teve um caso com ela, mas que não fica claro o porquê do término.
Com tudo isso podemos dizer que o filme é um belo candidato a levar a estatueta do Oscar, pois ele é incrivelmente lindo.

Nota: 4,5.


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