A Maravilhosa Senhora Maisel
A série “Maravilhosa Sra Maisel” se passa entre o final dos anos 1950 e início dos anos 1960 e segue Miriam “Midge” Maisel, uma típica mãe e dona de casa, inteligente, sagaz e muito bem-humorada, que vê seu mundo virar de cabeça para baixo depois que seu marido a deixa por outra mulher. Em meio ao momento mais turbulento de sua vida, Midge descobre ter um talento único para a comédia e, com a ajuda da durona aspirante a agente Susie Myerson, decide se tornar uma comediante de Stand- Up.
Essa é a série mais recente criada e produzida por Amy-Sherman Palladino, que fez seu nome pela série de sucesso “Gilmore Girls”, no início dos anos 2000. As séries de Palladino são marcantes por conterem diálogos rápidos no estilo de filmes da era clássica Hollywood, e diversas referências obscuras à cultura pop antiga. Já não era então sem tempo que ela decidisse fazer uma série de época, e seu estilo combina perfeitamente com esse período. Em termos de Timing cômico, Palladino continua mais afiada do que nunca. Em termos de caracterização, “Sra. Maisel” apresenta uma grande evolução, e a criadora se mostra mais confiante em desenvolver a trama em volta dos personagens em vez de moldar os personagens para caberem na trama, o que por muitas vezes acontecia em seus trabalhos anteriores.
Os personagens coadjuvantes de “Sra. Maisel” são muito bem desenvolvidos e escapam de qualquer caracterização rasa. Os pais de Midge, Abe e Rose Weissman, interpretados pelos incríves Tony Shaloub e Mary Hinkle, poderiam muito facilmente serem caricaturas dos pais conservadores de classe média, mas a história dispõe de muita atenção para as maneiras como a mudança de vida de Midge os afetam. Durante a trama, Abe passa a se questionar se deixou todo seu idealismo juvenil de lado e se deveria se tornar um homem mais aberto, enquanto Rose passa a confrontar seu papel como mulher dentro de sua família e as normas societais das quais se tornou refém.
Até mesmo Joel, ex-marido de Midge, interpretado por Michael Zegen que poderia ser um rascunho típico do “Boy Lixo”, e até é um pouco durante o início da série, vai se tornando um personagem mais complexo e, entre todos os altos e baixos de sua relação com a Midge, faz diversas tentativas para ser mais ambicioso e atencioso, com variado sucesso.
Mas o brilho da série é a relação entre Midge e Susan. Elas passam por desconhecidas que não se bicam, para sócias, e eventualmente amigas, sempre juntas na tentativa de tornar seus sonhos em realidade na cruel indústria do entretenimento, dominada por homens. Rachael Brosnahan e Alex Borstein fazem por merecer os diversos prêmios que receberam por seus papéis, dando um show de atuação e fazendo cada momento de conexão, de raiva, de frustração, e claro, de bom humor, completamente sublime.
Uma das especialidades de Palladino sempre foi o seu retrato de personagens femininas fortes, algo que atinge um outro nível em “Senhora Maisel”, que por conta do cenário cultural que retrata, lida com as questões de política de gênero de maneira ainda mais direta. O que faz as personagens de Palladino serem tão especiais é que elas não precisam abdicar de sua feminilidade, da sua sensibilidade e de seu afeto para serem consideradas personagens afrente de seu tempo, e Midge Maisel não é diferente.
Outra de suas especialidades é arquitetar séries que são tão deliciosas de se acompanhar quanto um jazz ambiente em um dia de chuva por baixo das cobertas. “Senhora Maisel”, mesmo com todo o drama e a forma como retrata questões sociais serias, é televisão de conforto da melhor qualidade. É um retrato reconfortante do movimento contracultura do início dos anos 60, cheias de imagens coloridas e montagens ao som de showtunes, mas não se abstendo de retratar as particularidades da época.
Nota: 4,5.

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