Anatomie d’une chute - Anatomia de uma Queda
Por Ricardo Hasegawa
Um dos filmes mais queridinhos dos festivais de cinema de 2023 e vencedor do prêmio Palma de Ouro, finalmente aterrissou em solo brasileiro. Estamos falando de "Anatomia de uma Queda" , que na trama irá acompanhar um suposto caso de homicídio de Samuel Maleski, que é encontrado morto por sua esposa, Sandra Voyter e seu filho, Daniel, do lado de fora do chalé que moram, na região dos Alpes Franceses.
Irá transcorrer um tremendo processo de tribunal para se decidir o que de verdade aconteceu, um suicídio, um homicídio ou um acidente? A maior suspeita fica por conta da Sandra e agora toda a vida dela será jogada de cabeça para baixo com tudo isto.
O longa tem em sua equipe criativa a Justine Triet na direção, de Sibyl, Na Cama com Victoria, entre outros. Aqui além da direção ela também é roteirista, onde divide a função com Arthur Harari, que também escreveu Sibly, além de Onoda - 10 Mil Noites na Selva, entre outros.
O longa é um thriller jurídico ou thriller de tribunal, porque se caracteriza pela presença de um advogado, promotor, que irá tentar acusar ou inocentar o réu, mediante a provas. Todo o caso de morte de Samuel começa a ser investigado e a principal suspeita é Sandra, sua esposa. Começa então a virar um julgamento do casal, onde eles pegam todas as informações possíveis para adicionar no caso e servir como prova acusá-la de homicídio. Eles literalmente fazem um pente fino na vida de Sandra, que vai desde antes dela começar a sair com Samuel e vai até o momento de sua morte.
Eles usam o fato de ela ser uma escritora de sucesso, enquanto ele estava totalmente em baixa, como também escritor. Ele deixa de escrever para se tornar um professor, de seu filho é uma instituição, além de construtor, pois está reconstruindo o chalé, com o objetivo de fazer uma renda extra com o aluguel de quartos. O casal decide fazer isto pois está passando por problemas financeiros, que foram só aumentando conforme o tempo se passava, onde se origina o acidente de Daniel.
O acidente que ocorreu com Daniel é o principal catalisador para o aumento das discussões entre o casal, pois ela culpava o marido pelo acidente até certo momento. Ele começa a se sentir muito para baixo e isso implica em praticamente tudo na sua vida, onde deixa de ser um professor em tempo integral para se dedicar a ajudar o Daniel, consertar o chalé e se sobrar um tempo voltar a escrever, mas que tudo isto implica no distanciamento ainda maior com a Sandra, onde chega ao ponto de quase não se verem mais como um casal.
Os advogados de acusação ainda conseguem descobrir que Sandra é bissexual e que ainda teria sido infiel algumas vezes, mas que somente com mulheres. Outra prova encontrada foi o extremo descontentamento de Samuel com o sucesso de um dos livros de Sandra, na qual ele a acusava de roubo de ideias, pois foi ele que teve a ideia, mas como ele a descartou ela pois não estava mais escrevendo, a Sandra perguntou se poderia aproveitar algo dela para seu novo livro, Samuel diz que sim.
O fato dele fazer uso de remédios controlados e ter ido a consultas médicas também aparece no caso, onde o médico quer provar para todos que seu tratamento era eficaz, pois todos os seus pacientes se saíram bem. Outro fato é o uso do idioma, pois enquanto o Samuel é francês e Sandra é alemã, eles têm de tomar a decisão sobre qual língua usarão para se comunicar em casa, Sandra então decide que irão optar pelo inglês, pois era mais fácil para todos.
Todo o julgamento vai parar na mídia, pois para eles a notícia se tratava de ouro, porque todos iriam ganhar milhares de views e likes, eles até conseguem descobrir sobre uma gravação de áudio que Samuel fez escondido de Sandra, onde eles brigam muito feio. Daí é que começam a pegar pesado nas manchetes dos jornais com a Sandra, e os programas de tv ficam debatendo se ela é culpada ou não.
Uma coisa que deve ser muito bem ressaltada é a atuação da Sandra Hüller (Sandra) e do Milo Machado Graner (Daniel) que estão fantásticos no papel, pois eles conseguem passar toda a emoção de uma mulher sendo julgada por todos, pela acusação de homicídio de seu marido e além disto sua vida estar sendo completamente exposta, mostrando que possui muitos defeitos. Enquanto ele, de estar sofrendo do luto de seu pai, enquanto sua mãe é a principal suspeita, e ainda por cima, descobrir que as brigas começaram depois do seu acidente e que talvez seu pai tenha sofrido de depressão e cometido suicídio.
A Justine Triet faz um excelente trabalho enquanto o filme caminha, pois ela faz você obrigatoriamente escolher um lado, e neste tempo começa a jogar as provas e contraprovas na mesa, para que você fique ainda mais confuso com tudo. Além disso, o filme também serve como uma crítica a tudo que estamos passando atualmente.
A diretora acertou, pois vemos um filme muito preciso, principalmente em relação às filmagens, como nas cenas do tribunal, onde todas as declarações são produzidas de modo que as filmagem só se concentre em quem está relatando, pois a diretora sabe que se fizesse num plano aberto ela teria as reações de todos, o que implicaria num juízo de valor, pois seria mais fácil nos manipular para escolhermos um lado e ela não quer isto.
Outro artifício que a diretora faz uso para aproximar o público é o uso do sentimentalismo, onde ela usa as emoções nas cenas do menino, enquanto ele está tentando digerir tudo que está acontecendo ao seu redor, ainda mais que estava ligado a trilha sonora, que é muito sútil e tocante, feita de um modo sincero e bem íntimo.
O filme em si possui um único problema, que é o avanço no tempo, entre a morte de Samuel e o começo do julgamento, onde ele tem este espaço de 1 ano. Nisto o filme faz este corte abrupto que não tem tanto sentido na trama se comparado a tudo corrido ao seguinte, dando até um impacto maior na trama, pois poderia mostrar o quanto a mídia produziria conteúdo para se manter em alta e o quanto a mídia francesa é sensacionalista.
No final o longa traz algumas mensagens bem legais e importantes, como o uso da palavra como fio condutor, pois estamos lidando com todo o sistema jurídico, que incluiu todo o seu vocabulário e seus métodos de persuasão. Do outro lado temos os escritores, eles que dominam todos os usos das palavras na formação de frases, além da semântica das palavras.
Outra coisa é a parte humana, que nisso ela se divide em 2 caminhos, onde o primeiro se dá pelo julgamento das pessoas, onde isto nos dias de hoje está sendo levado ao extremo, pois graças a tecnologia, estas informações estão chegando em segundos. O outro caminho se dá sobre o quanto você está disposto para descobrir a verdade das informações, pois elas podem estar muito escondidas e às vezes podem não condizer com sua expectativa.
Por último é o quanto a diretora faz com que você fique perturbado para decidir em qual lado você vai escolher, na qual a Sandra é culpada ou inocente pela morte do marido. Para te fazer ficar mais doido ela apresenta as provas de um modo convincente que você já escolhe um lado, nas depois ela faz o mesmo com as contraprovas que te deixa em dúvida se esta escolhando o lado certo, mas o que ela quer mesmo dizer é que não importa se ela é ou não culpada, mas sim o que o julgamento significou para Sandra, o seu julgamento, por ser mulher, bissexual, bem sucedida e longe de seu filho com deficiência, ou seja, o que todas as mulheres passam em todos os dias.
Enfim é por causa disto que este filme esta com altas recomendações de ganhar algumas estatuetas do Oscar, pois ele é intrigante, curioso e totalmente fantástico.
Nota: 4,5.

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