Maestro

 


Por Tomás Gimenes

“Maestro”, a nova empreitada cinematográfica do diretor Bradley Cooper, após o sucesso de “Nasce Uma Estrela” de 2018, é baseada na vida real do famoso músico, compositor, e grandiosa personalidade, Leonard Bernstein. O filme retrata momentos-chave de sua vida, focando em seu casamento com a atriz Felicia Montealegre, e os altos e baixos de seu relacionamento, e as formas como a jornada pessoal de Bernstein afetou seu relacionamento, como a exploração de sua sexualidade, assim como sua luta para evoluir como músico e artista em geral.

É importante notar, antes de mais nada, que esta é uma produção genuinamente impressionante. Bradley Cooper e Matthew Libatique atingiram uma nova etapa em sua parceria; pelo enquadramento, a iluminação, e pela forma como a câmera se move, tudo visa uma sensação específica.

A primeira parte do filme emula um filme clássico de Hollywood, pelo uso do preto e branco, o estilo das atuações, e pelo ritmo das cenas em geral, é perceptível que os cineastas buscavam algo mais com mais brilho e teatralidade com esta parte do filme, por cenas como a abertura, que faz a transição do apartamento de Bernstein até o teatro onde ele irá se apresentar pela primeira, feito para parecer um só take, com edição e ângulos de câmera muito criativos.

À medida que o filme avança, e passa do preto e branco para o colorido, o tom fica mais dramático, há mais pausas e tempo para momentos mais densos, sequências estendidas em que a câmera se aproxima lentamente de um personagem para captar uma reação forte, uma cena não editada e lindamente enquadrada de um casal discutindo; tudo sinalizando o fim do período de idealização romântica e a chegada do momento em que uma dura dose de realidade começa a se instalar.

A música tem um efeito semelhante: a primeira metade é permeada pela música de Bernstein, escolhida de forma cuidadosa para corresponder a um sentimento específico que a cena quer evocar. À medida que avançamos no filme, ouvimos cada vez menos a música de Bernstein e mais outros de outros gêneros musicais, particularmente a música pop, o que realça a passagem do tempo. Uma sequência específica mostra Bernstein e seus filhos em um carro enquanto toca “It’s The End Of The World As We Know It”, da banda R.E.M., música que menciona Bernstein pelo nome, mostrando que ele já é considerado, para o bem ou para o mal, parte da história.

Quando olhamos para a infinidade de coisas que compõem a história de “Maestro”, é seguro dizer que à medida que Bradley Cooper evolui como diretor, ele se torna ambicioso demais para seu próprio bem. O filme pretende abordar tanto sobre música, ambição e a natureza dos relacionamentos, que cada um dos temas apresentados tem essa sutileza subjacente que, se por um lado, é capaz de prender a atenção do espectador, por outro lado, torna extremamente difícil para o público se apegar a um único pensamento e sentimento fortes, e a uma linha emocional que mantém a história unida.

Em um dos momentos mais deslumbrantes do filme, Leonard diz a Felícia que ele pode ser “o maior condutor americano do mundo”, caso se concentre menos no teatro musical. Felicia, deslumbrada com seu trabalho em “On The Town”, questiona se isso é o que ele quer de verdade. Existe uma versão da história de Bernstein que aborda de forma mais profunda esse contraste entre “arte erudita” e “arte popular”,e entre paixão e prestígio quando se trata de traçar um caminho artístico, tendo como pano de fundo a carreira de Bernstein, mas isso não passa de uma cena.

A famosa sequência de orquestração, muito comentada pelo nível de preparação que Bradley Cooper teve que ter, sugere algo catártico para o personagem, pela empolgação e pela paixão que demonstra e pelo quanto mais aberto e caloroso ele parece ser depois de realizar esse feito. Mas essa cena não informa muito sobre o relacionamento deles e a forma como a música afeta sua personalidade em um nível íntimo, porque não vemos isso explorado suficientemente. Essa insuficiência dá a sequência um caráter de “Oscar Bait”, menos interessada em servir a história e mais em servir de exemplo de uma cena difícil como forma de atrair atenção dos críticos.

Quando se trata da sexualidade de Bernstein, seu lado mais romântico e a forma como ele se apresenta em seus relacionamentos, é difícil captar uma mensagem clara do filme, porque não vemos o suficiente de seu relacionamento com Felicia em contraste com os outros relacionamentos de sua vida, como o com Tommy Cothran, seu colaborador e eventual amante, por exemplo, ou com seus familiares, ou até mesmo sua relação com sua própria essência artística.

Quando chegamos à revelação do câncer de Felicia, o foco muda quase que por completo para ela, para sua dor e isolamento. Por um lado, isso dá ao filme uma mudança de foco necessária e uma oportunidade para Carey Mulligan realmente brilhar, e sua performance é impressionante. Porém, como ela é apresentada ao público desde o início mais como uma catalisadora para o personagem de Leonard, seu repentino momento de protagonismo não parece ter uma direção clara.

“Maestro” é uma maravilha técnica e uma jornada emocional inegável que, no cenário atual, em que o público em geral parece ser mais exigente com cinebiografias, principalmente cinebiografias musicais que estão mais interessadas em apresentar uma coleção da vida da pessoa do que tratar da música em si, é um filme com muito mais foco e mais ousado em suas escolhas cinematográficas, mas ainda deixa cada momento substancial com a sensação de ausência, de que há algo mais (já que estamos falando da vida de um orquestrador), operístico, teatral e grandioso por baixo do que é apresentado.

Nota: 3,5.

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