The Boy And The Heron - O Menino e a Garça
Por Ricardo Hasegawa
O filme em animação "O Menino e a Garça" conta a história de Maki Mahito, um menino que perde a sua mãe, Hisako, durante um incêndio no hospital em que ela trabalhava, durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Maki Shoichi, acabou se casando novamente com Natsuko, irmã de Hisako.
Conforme a guerra avança e deixa um rastro de destruição, resultado inclusive no desabamento da casa deles, Shoichi e Mahito vão morar no interior, na casa da família de Natsuko, que possui um terreno gigantesco e nele, há uma torre escondida e ainda por cima, Mahito descobre que Natsuko está grávida. Tentando se acostumar com toda esta nova situação ele ainda começa a ser perseguido por uma garça que começa a tentá-lo a entrar na torre, dizendo que sua mãe não estava morta e que ela estava lá esperando por ajuda.
O filme conta com a volta do aclamado diretor Miyazaki Hayao da aposentadoria, e estava marcado para estrear durante as Olimpíadas de Tokyo de 2020, mas devido a Pandemia teve seu lançamento adiado e ainda passou por diversas mudanças durante esse período, vindo a ser lançado somente em 2023.
O mestre Miyazaki traz em seu filme diversas referências, sejam elas, autobiográficas ou literárias. As autobiográficas podem ser vistas como sua vivência com a Segunda Guerra Mundial, quando vivenciou vários dos seus horrores, apenas aos 4 anos de idade, A perda de sua mãe, que era um dos seus pilares e o relacionamento com seu pai.
Já as suas referências literárias são, 'O Livro das Coisas Perdidas', do irlandês John Connolly, 'Torre Fantasma', do japonês Ranpo Edogawa e de 'Como Você Vive?', do japonês Yoshino Genzaburo. Aliás, esta última referência do Yoshino Genzaburo é o título do filme lá no Japão, "Como Você Vive?", mas ele foi alterado no ocidente para "O Menino e a Garça" porque ele é muito aberto, possuindo várias reflexões, o que poderia deixar o público meio confuso.
Uma das questões mais interessantes está voltada na escolha da garça, em ser como o guia de Mahito entre os dois mundos, mas Miyazaki a escolheu pelo simbolismo dela no Japão, pois ela serve como a conexão com o divino, representando a busca pela iluminação espiritual, a harmonia e a paz interior.
Esta escolha faz total sentido se pararmos para avaliar o enredo, porque ele é uma história sobre o amadurecimento, mas não uma simples história com somente uma camada, mas uma com várias camadas e com lições em vários níveis, como, a questão sobre a morte da mãe, a adição de uma nova mãe, uma uma mudança para um lugar totalmente ao inverso que conhecia, a vinda de um bebê, uma nova rotina, nova escola, o sentimento de solidão pois nem eu pai o escutava, entre outros níveis. Conseguimos ver claramente Mahito passando por tudo isto, se tornando apático a tudo e num sentimento de solidão extrema.
Para que tudo pudesse ser trabalhado era necessário uma imensa construção de Universo perfeita, pois tudo isto é extremamente fantástico e lisérgico, o que torna a experiência incrível e imersiva, e foi exatamente isto o que Miyazaki fez com o filme.
Isto é refletido através do universo criado dentro da torre, que oferece vários aspectos muito interessantes, como, a criação de personagens e suas mutações, os mundos lisérgicos e extremamente malucos. Ele também oferece um mundo em que funciona a lógica de sonho, onde o abstrato dita praticamente tudo, como, conceitos, dinâmicas e suas figuras que lá habitam.
Além disto, o Miyazaki Hayao consegue provar para todos que as animações em 2D ainda estão em alta, ao contrário de que muitas pessoas pensam e dizem por aí, afirmando de que esta técnica está totalmente desatualizada e de que é hora de se produzir animações em 3D.
Esta experiência é totalmente incrível, pois você consegue perceber o tanto de esmero que Miyazaki teve para conceber sua obra e ainda imaginar que todo este atraso para seu lançamento veio por uma boa causa no final das contas, pois pode contribuir para que alguns últimos ajustes fossem feitos.
Conseguimos observar todos os detalhes em tela como, a fluidez de todo o cenário e seus objetos que o compõem, como, o balanço das folhas, onde cada uma delas balança de uma forma diferente e até mesmo o reflexo e balanço da água. Com isto podemos concluir que em diversas partes do filme a arte consegue facilmente substituir as palavras.
Uma das coisas que podem ser negativas conforme o público que assiste é de que o autor não se foca em dar uma amarração para tudo, fornecendo uma grande lição de moral ou algo do tipo. A outra questão é relacionada ao que foi dito anteriormente, pois o filme é mais contemplativo e monótono, ainda mais se compararmos aos outros filmes de mesmo gênero.
Embora o filme não nos obrigue a tirar uma conclusão ou mensagem, podemos fazer então a reflexão de que amadurecer é um processo extremamente complicado, doloroso e que leva tempo, e que talvez devamos irmos buscar estas respostas na imaginação e sentimentos.
Nota: 4,5.

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