The Zone of Interest - Zona de Interesse



Por Tomás Gimenes


Os primeiros minutos de “Zona de Interesse” são uma introdução perfeita à atmosfera em que estamos prestes a entrar. Olhamos para uma tela preta por alguns minutos enquanto ouvimos vários sons que evocam imagens violentas. Somos então apresentados a uma família de aspecto muito tradicional, desfrutando de um dia de sol perto da sua idílica casa na Áustria, por volta de 1943. Bem ao lado da sua casa há um campo de concentração, onde o patriarca, Rudolf Höss, é comandante.
Esta é uma exploração extremamente precisa da banalização da violência sistêmica. O filme confia no público o suficiente para que estejamos cientes do que está acontecendo e evita propositalmente que vejamos qualquer coisa explícita. Cada ato horrível de violência é sutilmente aludido, o que torna a experiência ainda mais dolorosa.
O filme nos obriga a ouvir gritos de angústia enquanto a câmara se fixa perfeitamente às expressões do comandante durante alguns minutos, jamais se movendo. Cenas são interrompidas logo antes do momento em que sabemos que algo chocante está para acontecer. E então corta para a esposa de Rudolf, Hedwig, mostra alegremente as roupas de uma mulher que sabemos que morreu de maneira brutal bem ao lado para sus amigas.
Hollywood tem um longo histórico de histórias centradas nos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, devido a um longo fascínio pela história, pelas imagens que pode gerar e pelas mensagens que podem fornecer. “Zona de Interesse” se diferencia por ousar fazer perguntas cruciais: por que essas histórias ainda são importantes hoje? Como podemos aplicá-los ao nosso tempo atual? Principalmente considerando que vivemos numa época em que as pessoas estão cada vez mais conscientes dos vários conflitos e genocídios que acontecem à nossa volta todos os dias.
Quem somos nós num cenário como este? Somos como a menininha que perambula à noite escondida dos soldados para deixar comida aos prisioneiros, ou somos mais como a mãe de Hedwig, tão feliz em deliciar da boa vida que o sustento do genro proporcionou à filha, mas rapidamente vira as costas quando um simples rastro da violência que permeia as suas vidas todos os dias, como as chamas que surgem do crematório, se atreve a invadir o seu espaço? O diretor Jonathan Glazer disse que queria “desmantelar a ideia dos [nazistas] como anomalias” e deixar claro que, no mundo real, eles são seus vizinhos, as pessoas da sua comunidade, vivendo vidas normais.
A genialidade de sua direção é a justaposição do modelo de vida idílico da família Höss, provavelmente muito atraente para muitas pessoas (e, portanto, serve como um ponto de identificação com o espectador) e as alusões que ele cria ao terror subjacente. que circula em seu entorno. O enquadramento usado é bastante simples, mas fornece profundidade suficiente as imagens e acentua a beleza, a natureza imaculada, e a tranquilidade que cerca a família, para então contrastar com a feiura e a corrosividade que cercam aquelas imagens, como um simples close-ups em um lírio branco, acentuando os insetos que o cercam; a feiura que corrói a sua beleza.
A sequência final do filme, que mistura passado e presente (ou presente e futuro, dependendo do seu ponto de vista), encapsula perfeitamente os temas do filme: os perigos do distanciamento emocional às tragédias da nossa história, e a casualidade com que nos cercamos das atrocidades que a permeiam, mesmo quando nós as colocamos em nosso cânone histórico.

Nota: 5,0.

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