American Fiction - Ficção Americana
por Tomás Gimenes
Em “American Fiction”, Thelonius “Monk” Ellison, um professor universitário lidando com diversos problemas familiares; tendo que cuidar da mãe, que sofre de demência, e do irmão recém-divorciado que caiu totalmente em um estilo de vida boêmio. Devido a imensa dificuldade para vender seus livros, considerados “não negros o suficiente” pela maioria das editoras, Monk decide escrever seu “Livro Negro”, uma história que envolve gangues, drogas e mais um pouco do que a elite artística considera “negro”. O que virá depois abalará todos os aspectos da vida de Monk.
A genialidade de “American Fiction” é que ele consegue ser um filme que faz uma crítica à falta de diversidade das histórias negras aceitas pelo mainstream, ao mesmo tempo que é por si só, uma “história negra” que foge do molde estereotipado das histórias que são aceitos, sobre um homem com formação universitária que lida com luto, problemas financeiros e o peso dos seus relacionamentos.
A crítica mais contundente aqui não deveria ser de que a história negra estereotipada não é importante, e prejudica a comunidade negra, mas sim que este tipo de história é mitificado pelas elites brancas de tal forma, que ela se torna um monolito, e deixa pouco espaço para que outros tipos de histórias se concretizem. Algumas dessas críticas ocorrem no filme na forma das interações de Monk com Sintara Golden, uma jovem autora cujo querido livro “We’s Lives in Da Ghetto”, que se encaixa muito mais adequadamente no tipo de "livros negros" que o mainstream adora.
Ainda assim, ficamos com a impressão de que este ponto poderia ter sido feito de forma mais explícita, destacando a validade desses tipos de histórias e como elas podem realmente ter significado quando são isentas de cinismo corporativo, principalmente considerando que este é um filme que, no geral, consegue não ser enfadonho em sua falta de sutileza, o que não é tarefa fácil.
A saga de Monk tentando vender seu livro, apresenta algumas representações bem caricaturais de produtores e agentes brancos, agindo desesperadamente para poder comprá-lo, o que ao menos funciona em nível cômico, principalmente por ser uma oportunidade para Jeffrey Wright mostrar seu talento cômico como um homem sofisticado tentando ser “street”, como filme coloca.
E essa veia cômica do filme é grande parte do que o faz funcionar bem como peça satírica. Diálogos como “é importante ouvirmos histórias negras agora”, no contexto da história são frustrantemente engraçados, assim como a cena em que Monk é forçado a escolher um final mais violento para o roteiro que está produzindo, em favor de um final mais ambíguo.
Tudo isso acompanhado por performances impressionantemente afiadas de um elenco incrível, liderado pelo incrível Jeffrey Wright e apoiado pelos incriveis Tracee Eliss Ross, Issa Rae e Sterling K Brown.
“Ficção Americana” está disponível no Amazon Prime Video. Com 5 indicações ao Oscar e vitórias significativas no Critics’ Choice Awards e no Independent Movie Awards, é um dos mais fortes candidatos ao prêmio do ano.
Nota: 4,5.

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