Jay Kelly
Por Tomás Gimenes
"Jay Kelly", a mais recente empreitada do roteirista/diretor Noah Baumbach para a Netflix, acompanha o personagem-título, Jay Kelly (George Clooney), um ator e astro de cinema renomado que está finalizando seu novo filme. Jay reencontra um amigo do passado (Billy Crudup) que teve um papel fundamental em seus primórdios; esse encontro o leva a questionar a si mesmo e sua trajetória.
Jay decide então viajar para a Europa para atender a um evento em homenagem à sua carreira e, durante a viagem, se reconectar com sua filha Daisy, que está viajando com amigos. No melhor estilo “Baumbach”, nosso protagonista embarca em uma jornada de autodescoberta, tentando se reconectar com sua verdadeira essência, que, devido à influência de ter incorporado tantas pessoas diferentes ao longo da vida, pode ser difícil de reencontrar.
Ao seu lado estão seu empresário e amigo Ron (Adam Sandler) e sua assessora de imprensa Liz (Laura Dern), que são tão responsáveis por moldar a imagem e a ideia de Jay quanto ele próprio. Essa jornada também os levará a questionar o rumo de suas vidas pessoais, bem como seu relacionamento um com o outro.
Provavelmente, o aspecto mais interessante de Jay Kelly é a complexidade de seu personagem, ou pelo menos de como ele se apresenta. Quando Jay tem seu momento de epifania que o leva a ir para a Europa, ele parece desenvolver um interesse em se conectar com as pessoas comuns. Uma das cenas mais interessantes do filme é quando ele tem um momento de ternura com os passageiros do trem que o leva da França para a Itália, desenvolvendo uma aparente conexão com eles.
Isso se intensifica a ponto de ele impedir que um dos passageiros seja assaltado, outro momento marcante do filme. Fica claro pela história que isso tem tanto a ver com a reavaliação da própria vida de Jay quanto com sua “Húbris” e a necessidade por admiração.
Seu relacionamento com suas filhas, o ponto central emocional do filme, também segue essa mesma dualidade. Jay demonstra certo interesse em suas vidas, tanto nas cenas de flashback quanto nas do presente, e guarda com carinho as lembranças que têm delas. No entanto, a recordação dessas memórias e as cenas de flashback mostram que ele talvez não tenha estado completamente presente nesses momentos, o que torna seu relacionamento com elas mais complicado com o passar do tempo.
No pouco tempo que passamos com elas, temos algumas percepções aprofundadas sobre suas vidas e o efeito de Jay sobre elas, seja através do relacionamento de Jessica com seus próprios filhos ou da perspectiva de Daisy sobre a atuação e o lugar da arte em sua vida.
A primeira cena do filme mostra Jay filmando sua última cena, que pode ser seu último filme. Ele pede uma segunda tomada para tentar torná-la ainda melhor, mesmo o diretor estando satisfeito com o que ele já fez. A última cena mostra Jay assistindo a uma montagem de seus filmes, quase como um “meta-comentário” sobre a carreira de George Clooney. A montagem termina com imagens das filhas de Jay quando crianças fazendo uma apresentação juntas, um momento que ele lembra com carinho, mas que não estava presente o suficiente para ser verdadeiramente apreciado. Ele então repete a frase que disse no início ("Posso ir de novo? Eu gostaria de mais uma"), que se aplica tanto ao desejo de reviver a maior parte de seu legado quanto à vontade de fazer as coisas de maneira diferente em sua vida pessoal.
A abertura do filme apresenta uma citação de Sylvia Plath ("É uma enorme responsabilidade ser você mesmo. É muito mais fácil ser outra pessoa ou ninguém"), que fala tanto sobre a natureza da performance quanto sobre a vida como um todo, o que resume perfeitamente o que o filme tenta abordar. A ideia de uma pessoa lutando entre a carreira e a vida pessoal não é um tema incomum no cinema. Mas "Jay Kelly" é um dos poucos que tratam da importância de ambos os aspectos e da busca pelo equilíbrio ideal entre eles. E, de uma forma mais sutil, leva o público a questionar o que realmente significa ser você mesmo e até que ponto evitar as coisas que o tornariam “você mesmo” acabam de tornando “ninguém”.
Nota: 4,0.

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